Heráldica

Heráldica

LEITURA HERÁLDICA – Escudo de ouro, uma vaca de negro, passante, numa coroa formada por duas canas de verde unidas em ponta, folhadas do mesmo e com duas maçarocas de prata. Em chefe um açor de sua cor, voante e segurando nas garras uma Cruz de Cristo. Contrachefe ondeado de verde, com duas burelas ondeadas de prata. Coroa mural de (*),torres de prata. Listel do mesmo, com a legenda a negro (*)


MEMÓRIA HISTÓRICA E JUSTIFICATIVA DOS SÍMBOLOS HERÁLDICOS PROPOSTOS
  

  – O Açor voante segurando nas garras uma Cruz de Cristo, simboliza todo o Arquipélago dos Açores. O Açor é sem dúvida a peça mais notória da sua bela Bandeira azul e branca, que lembra a antiga Bandeira Portuguesa que foi criada precisamente nos Açores e cujo primeiro exemplar foi bordado por damas do Faial, que simbolicamente, a ofereceram ao Príncipe D. Pedro, Duque de Bragança, então pretendente ao Trono e comandante das Tropas Liberais aquarteladas nos Açores.  

- A cruz de Cristo lembra que as ilhas dos Açores (apenas explorada a de Santa Maria, que a de S. Miguel mal se vislumbrava no horizonte, envolta em neblina), foram oferecidas à Ordem Militar de Cristo. Foi seu primeiro Capitão dos Donatários (como eram conhecidos os Governadores, que tinham cargo hereditário) o Comendador daquela Ordem, Senhor do Castelo de Almourol e demais terras, Frei Gonçalo Velho Cabral, que devido aos seus votos era solteiro e não tinha filhos que lhe sucedessem, nomeou ser herdeiro o sobrinho, filho de sua irmã Teresa, João Soares d’Albergaria, que foi o II Capitão dos Donatários dos Açores. Alguns anos mais tarde este havia de vender por um preço simbólico (8000$000 reis em dinheiro e 4000 arrobas de açúcar), a ilha de S. Miguel e a sua Capitania, a Ruy Gonçalves de Câmara, filho do Capitão dos Donatários da Ilha da Madeira…  

A verdade é que não se previa o valor e o incremento que havia de ter a Ilha de S. Miguel, que em breve suplantaria a modesta Ilha de Santa Maria. Naquele tempo era muito diferente, e um escravo preto que fugira para S. Miguel, muito agradeceria a sua captura, duma ilha sempre envolta em nevoeiro e que estremecia por todo o lado…  

Hoje, S. Miguel é a bela Ilha que todos conhecemos, aberta ao futuro, respeitadora de um passado glorioso, mas vivendo intensamente o presente. É nesta Ilha, ridente de esperança, que se localiza esta freguesia.  

- A vaca simboliza não só a considerável importância da exploração agro-pecuária da freguesia, mas também a indústria de lacticínios dela dependente e interligada. Segundo os últimos elementos que nos foi possível consultar, existiam no princípio desta década cerca de 6.000 bovinos, sendo que cerca de 50% eram vacas leiteiras. A vaca predominante das vacas é Holandesa X Holstein-Friesian. São criadas SEMPRE nos pastos e “comem à corda”, ou seja, presas por um pé numa corda com cerca de 4 ou 5 metros, terminada por uma estaca normalmente de madeira. Esta corda não as deixa estragar o restos dos patos e será mudada para uma circunferência de 1ª ordenha, outra ao meio dia e a última à noitinha.  

- O milho representa a agricultura da freguesia, em que aquela planta tradicionalmente mantém um lugar predominante. Dizemos tradicionalmente, embora na verdade esta cultura seja relativamente recente, pois o milho mais não é que uma planta da família das Gramíneas, originária da América e que é muito apreciada por todo o país, não só pelo valor do seu grão planificável, mas também pelo colmo e pelas folhas que servem de forragem.  

- O milho é seco ao sol, em piões, cafuões ou toldas, o que não é costume nas restantes ilhas, que preferem as camadas “Burras”, ou sejam construções em forma de oblisco, à excepção de São Jorge onde secam o milho no forno onde normalmente cozia o pão. O Cafuão tem 6,8 ou 10 pernas, unidas 2 a 2 nas extremidades, formando um ângulo agudo, e todas elas por uma trave principal que segura a construção. As maçarocas ficam penduradas numas varas transversais que ao mesmo tempo dão estabilidade ao cafuão, o qual finalmente será coberto por uma espécie de esteira de palha, para proteger o milho dos pardais e do tempo.  

O milho destinado a ser transformado em farinha, actualmente é moído em modernas moagens, mas não há muitos anos a única maneira de o fazer era por meio de moinhos de vento.  Os engenhos movidos a água nunca foram comuns nos Açores, ao pão que é difícil, se não impossível, encontrar hoje em dia um moinho de vento que respeite o modelo tradicional, mesmo os reconstruídos. A maioria deles limita-se a mostrar um espigão exterior, mas sem qualquer ligação por onde se conclua que era movido a panos de vela, ou a palheta, que mais não que uma espécie de hélice que o vento faz girar depois do primeiro impulso. Isto é tanto mais lamentável quando se pensa que estamos na freguesia que tinha mais moinhos de vento nos açores. Estes moinhos foram copiados de um modelo existente em Santa Clara, subúrbios de Ponta Delgada, e apareceram no princípio do século XVII, sendo mais antigos de que se tem notícia nos Açores.  

- Existem boas e rentáveis plantações duma planta que por todo o lado condenam. Quem se dedica a esta cultura, normalmente só a faz disfarçadamente e de uma forma como que envergonhada, perante a perseguição mundial que lhe movem. Trata-se de uma planta herbácea, da família das Solanáceas, que já foi conhecida como a erva-santa. E foi importada da América, mas que os árabes já conheciam sob o nome de Tabbaq, e ao qual nós chamamos de «Tabaco».  

- De entre as figuras notáveis que nasceram nos Arrifes, não podemos deixar de salientar a figura do Cardeal D. Humberto de Medeiros, que foi Bispo de Boston, tendo emigrado para os Estados Unidos onde faleceu. Orgulhava-se da sua terra natal, visitando-a sempre que lhe era possível.  

Outra figura de destaque, mas esta no campo da história e da vida quotidiana, foi a do Padre Daniel A. Correia, que escreveu e mandou publicar em 1984, o interessante e útil livro «Crónicas dos Arrifes»  

Como era de tradição por todo o lado, numa altura em que não havia onde passar honestamente os tempos vagos, a grande motivação eram os festejos religiosos, a música e o teatro, na verdade intimamente ligados. Também por aqui passaram bons músicos e amadores da arte de Palma, que desempenharam e eram vida a animadas comédias do chamado teatro popular. Mas foi sobretudo nos seus poetas e repentistas, que neste aspecto a freguesia dos Arrifes brilhou. Foram inesquecíveis as Cantigas ao Desafio realizadas nos Arrifes, em que os melhores cantadores de S. Miguel e alguns da Terceira, se desafiaram mutuamente, em sãs e divertidas cantigas populares.  

- Originariamente os Arrifes eram um dos lugares preferido para a nobreza e burgueses ricos de Ponta Delgada, terem as suas quintas e casas de veraneio. Alguns edifícios antigos, escrituras de propriedade e a sobrevivência de alguns membros dessas famílias, disso são prova.  

- Quanto à origem do nome Arrifes, algumas opiniões diferem. Somos de opinião que o nome é de origem árabe, como tantos que encontramos em Portugal. ALRIFE significa em árabe beira-mar, o que é apropriado nos Açores, tanto mais que encontramos este mesmo nome em lugares de diversas Ilhas, tanto aqui como na Madeira. A verdade é que também encontramos com este nome alguns lugares interiores, que aparentemente não têm qualquer ligação com o mar e referimo-nos principalmente a Monsanto (Alcanena) e Orada (Beja), cremos firmemente que o nome foi aportuguesado como muitos outros no continente, passando à Madeira e aos açores, onde se espalhou.